segunda-feira, 8 de março de 2010

FICAR SEM PALAVRAS


... Perdi-lhe o rasto... E tenho pena!
Era um menino Franzino, com cheiro a chocolate... Esperto demais para os seus 7/8 anos que nunca chegueí a confirmar. Acrobata no circo das ruas e na sua ainda curta existencia. Parecia-me ter crescido cedo demais!
Perdi-lhe também o nome... era o que menos importava nele, sobressaía a sua conversa extrovertida, fluente mas desajeitada - de quem já viveu coisas que não devia e as reflecte nas atitudes e nas palavras.
Não tinha bola mas não perdia a oportunidade de fazer sua, a dos outros.
Os seus ténis rotos também não impediam as brilhantes fintas, que demonstravam muitos dias de treino solitário nos campos cimentados da rua... Andava por sua conta, tal homem feito, preparado para defender-se do que surgisse. Ninguém queria jogar com ele e ele revoltado ripostava com todos.
Também ninguém queria jogar com o Vasco e essa rejeição comum, juntava-os. Senti-me tentada a explicar-lhe a diferença do Vasco, e a fazê-los companheiros de jogo. Talvez ele visse na responsabilidade de ensinar o meu filho a jogar futebol, uma tarefa importante, e talvez o Vasco aprendesse com este companheiro, as regras sociais da partilha e quem sabe da amizade. Pareceu-me uma troca justa.
Procureí com cuidado as palavras para lhe falar numa perturbação que nem todos os adultos compreendem, quanto mais uma criança... E lá comecei o meu discurso, na certeza de que o iria conseguir fácilmente:

- Sabes, o Vasco é um menino especial, com algumas dificuldades em fazer as coisas rápido como tu. Ainda não sabe jogar à bola, e tem dificuldades em falar, mas anda a aprender. Se ele não te responder logo, não te admires, insiste que ele acaba por responder-te. Sabes, ele gosta muito de crianças mas algumas não querem jogar com ele, e eu gostava que lhe ensinasses a chutar a bola como tu fazes... blá, blá, blá.

O seu silêncio às minhas cuidadas explicações, começou a preocupar-me - como estaría ele a perceber a minha mensagem?!
Prossegui na minha douta conversa, mas o silêncio do meu ouvinte impunha-se até que se me terminaram as palavras... Por segundos só se ouviam as folhas das àrvores, e a resposta não se fez tardar:
- OLHE, VALE MAIS SER DEFICIENTE DO QUE MAL TRATADO.
Esta frase foi como uma paulada na minha cabeça... simples e curta, directa e clara. Esclarecedora! Não era preciso dizer mais nada.
Fez-se de novo silêncio. (Tinham-se-me acabado as palavras)! Disfarceí uma terrível vontade de chorar, chuteí-lhe a bola e lá foi ele na sua missão de ensinar o meu menino. Senteí-me para digerir o que acabara de ouvir.
A adulta era eu, tinha que fazer alguma coisa, porque tais palavras eram reveladoras de uma necessidade de "intervenção". Ao Vasco faltava-lhe aprender a jogar à bola, e àquele menino franzino, faltavam-lhe muitas outras coisas que talvez eu lhe pudesse, por alguns momentos, dar.
Mas a minha "intervenção" tería que ficar para outro dia porque... sentia-me perfeitamente desarmada.
Prometi a mim mesma que me ia "armar" de novo e que da próxima vez já estaría preparada para dar lhe mais...

6 comentários:

filipa disse...

Sem comentários, sem palavras,.....

Fê-blue bird disse...

As crianças têm a capacidade de nos deixar assim...sem palavras. E este seu sentido texto também!
Um beijinho comovido.

Mina disse...

Eu diria antes a força e o poder das palavras.
Que uma só frase desarma o mais prevenido, e dá sentido há vivência daquela criança, que sentiria falta de afecto...
Não, há crianças más, à é falta de atenção para com elas e até um "pestinha", se transforma com a força do amor...
Bjinhos

Autismo disse...

Olá, minha querida, claro que terei imenso prazer de lanchar um dia consigo, não sei é se consigo levar o meu irmão, temos que combinar um dia, mas esta semana está um pouco complicada!
Bem realmente não é de esperar que uma criança responda aquilo, é porque a vida tem sido "madrasta" para aquele menino, realmente a vida por vezes dá.nos estas chapadas, que não esperamos ouvir...
Eu uma vez escrevi um artigo em que uma menina chocou-me ao dizer que não deixava que o meu irmão a tocasse porque ele era defeciente... uma pessoa que ouve aquilo fica tão, mas tão magoada por dentro... mas é a vida!
Muitas vezes é culpa da educação que recebem de casa, e as coisas só vão melhorar, quando houver uma alteração radical, do pensamento social, do agir social, mas as pessoas são muito ignorantes no que diz respeito á deficiencia! É pena, eles é que não sabem o que perdem...
Um grande beijinho,força, e pensamento positivo , um dia as coisas irão mudar =)

samnio disse...

Perante a força e magia dos seus textos, acho que chegou a hora e deixo-lhe este desafio, de pensar em compilá-los e passá-los a livro.
Pense nisso.
Espero pelo convite, para assistir à apresentação.
Um Abraço.

Atena disse...

Queridos amigos, obrigada pela vossa tão doce presença. Deixo-vos uma palavra a todos:
FILIPA:
Penso que chegas-te a conhecer este menino no campo de futebol onde iamos quase todas as tardes um bocadinho. Se não, eu acho que pelo menos chegueí a falar-te dele... ele deixou-me tantas vezes sem palavras!
FÊ:
Acredite Fê que este é mesmo um texto sentido, ainda assim não o é o suficiente, porque não exprime o que aquele menino nos transmitiu tantas vezes (a mim, ao Vasco e ao pai). Desconcertavam-me muitas das suas "saídas". Ensinou-me algumas coisas sem saber. Estava completamente por sua conta e nem na escola o olhavam com olhos de ver. O Vasco adorava-o e falava-me o nome dele muitas vezes. Marcavamos encontros no campo de futebol e passavamos uns bocadinhos bem engraçados. Contou-me tantas coisas da sua curta vida... emocionou-me tantas vezes. Consegui sempre conter-me até porque ele era demasiado forte e nunca fraquejava, não podia ser eu a fazê-lo. Nunca o esquecereí. E não imagina o que guardo das nossas conversas... Recordo que naquela altura tivemos vontade de traze-lo para nossa casa... mas aquele menino, tão doce quanto revoltado, não era nosso. E parecia que também não era de ninguém.
MINA:
È isso Mina, a falta de afecto é uma perturbação, tão ou mais grave, como tantas outras. Efectivamente ele não era uma criança fácil, percebia-se no comportamento, mas era muito docil quando acarinhado, ou quando simplesmente lhe davamos atenção. Era uma criança muito rica por dentro, mas na mais completa desordenação. Rijo como o aço, muito mais que eu, essa sua capacidade quase me assustava e soava-me a frieza, mas não era... Acontece que num corpo já calejado as pancadas doiem muito menos. Era assim aquele menino. Tranquiliza-me pensar que a sua desenvoltura irá ser-lhe util para ultrapassar obstáculos e vencer as batalhas da vida. (E desejo mesmo que assim seja).
YVONNE:
Fica de pé o lanchinho quando te seja possivel (mandas-me um mail - se puder ir o mano fico contente, senão, também).
Sobre este menino de que aqui faleí, já disse muito, e muito mais fica por dizer, porque ele era muito cheio de tudo. Ele ensinou-me por exemplo que ser deficiente ou diferente ou especial (as palavras interessavam-lhe pouco) podia não ser bom mas haviam ainda coisas piores... não ser amado, acarinhado, andar por sua conta e ter de aprender aos "pontapés" a defender-se porque não estará lá ninguém para o defender. Na sua sabedoria de criança tentou minimizar as dificuldades do meu menino, salientando que até podia ser assim, mas que ele teria sempre os pais ali para o defender e amar. (Chegou a dizer-mo)... Este menino era muito especial Yvonne, e não passou nas nossas vidas por acaso. Também nós esperamos ter sido positivamente importantes para ele.
Quanto à ignorancia alheia, já não pesa tanto em mim, fui aprendendo a defender-me dessa praga. Há coisas bem mais valiosas e pessoas adoráveis que merecem muito mais o nosso tempo.
SAMNIO:
Fico feliz pelo desafio... e acredite que penso nisso há algum tempo. Mas preciso ir melhorando os textos, sobretudo melhorar-me a mim mesma... Se o fizer um dia, gostaría que fosse na perspectiva de contribuir para algo de positivo e util, relacionado com a minha experiencia nesta tematica do Autismo. Vou continuar a escrever por aqui, esperando crescer ainda mais, e esperando também o crescimento do meu filho. Quem sabe nesta liberdade de escrever como sinto, não estou já a colocar as primeiras pedras nesse empreendimento! De uma coisa pode ter a certeza, será o primeiro e mais destacado convidado para a apresentação, além de que lhe pediria para escrever o prefácio porque também sou fã das suas palavras e sobretudo dos seus pensamentos.
Um abraço a todos,

 
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