terça-feira, 6 de julho de 2010

OUTRAS VIDAS IV (TRANSCRIÇÂO)

A saúde mental dos portugueses

Transcrição do artigo do médico psiquiatra Pedro Afonso, publicado no Público, 2010-06-21

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.

Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso
Médico psiquiatra

11 comentários:

Fê-blue bird disse...

Nem sei o que dizer, porque está tudo aqui!
O meu desabafo é igual a muitas mulheres e mães deste país.
Só temo me cansar e desistir.

Beijinhos

Mina disse...

Assustadoramente real!...
Sem mais comentários...
bjs

filipa disse...

nem sei o ke dizer,...é triste,....pior...é real. Já ai estive nessas situações....a sorte foi ke tive sempre a mão de pessoas, essas pessoas ke vão ser sempre especiais.

silvia disse...

Li este post vezes sem conta e só posso dizer-te que fiquei sem palavras... tocou-me bem lá no fundo...

Atena disse...

É isso amigas... posteí este sentido texto, porque não há nele uma unica ideia que não seja a mais pura das verdades... Lamento profundamente mas tenho bem presente que é a real sociedade onde vivemos. Comprovo-o todos os dias e por isso todos os dias agradeço a Deus ainda ter forças para sorrir e andar por cá com esperança, nem sei bem muitas vezes em quê.

Sandra disse...

Este texto é impressionante... está tudo tudo aqui... e é tão dolorosamente dificil ter consciência disto tudo e nada ou quase nada poder fazer.

Li uma entrevista em que Pedro Afonso diz qq coisa como "temos que sofrer um bocadinho com os doentes para os perceber e só depois voltar ao papel de médico"... e pensar que há tantos médicos que o são apenas para enriquecer, ter casas fabulásticas e carros topos de gama... e depois são tão "pobres" emotivamente ou intelectualmente...

Anónimo disse...

Este estudo reflecte um dos grandes males dos tempos modernos e dos factores que originam estas problemáticas.
Queria acrescentar algo que muitas vezes a nós homens/pais de meninos genuínos, nos provoca quebra de forças e sentimos muitas vezes que a nossa saúde mental beliscada.

As vezes dou por mim a perguntar:
- O porque de determinadas leis serem como são?
- Porque que, é uma guerra um Pai querer mais tempo para estar com o seu filho?
- Porque olham-me de uma forma estranha, quando digo que preciso de sair mais cedo para estar com o meu filho?
- Porque que nesta lutas fico desgastado e muitas vezes atormentado e abalado psicologicamente?
Na minha opinião, isto tem a ver com factores Socioculturais e factores históricos e também, muitas vezes, a falta de um sentido de luta pelos direitos que todos nós homens (Pais) devia-mos de ter.
Culturalmente é aceite que o encargo dos filhos seja mais da mãe do que do pai, e quem tenta o contrario é rotulado do individuo que quer fugir ao trabalho agarrando-se a essa desculpa.
No nosso sistema judicial as leis ainda não protege como deveria os direitos dos Pais. (Será por que da jeito a maioria dos homens?) e (Também será porque os legisladores na grande maioria são Homens?)
Quero deixar um desafio a todos os homens (pais). Vamos mudar mentalidade e vamos assumir as nossas responsabilidades. Ou será mais cómodo como esta e arriscamo-nos a ter sempre uma luta acesa para impor um direito que e nosso.
O DIREITO SER PAI PRESENTE
Miguel Franco

Atena disse...

Meu amor, como eu te compreendo... a sociedade tem muitas coisas erradas, temos mesmo de tentar lutar por ir conseguindo sobreviver, sem endoidar! Eu amo-te muito e compreendo bem o que sentes, também sinto a pressão da sociedade noutros aspectos e não é facil manter-mo-nos erguidos. Felizmente temos-nos um ao outro e ao nosso menino... vamos lutando para não cair e com calma as coisas vão-se ultrapassando. Para terminar, digo-te que tenho orgulho em ser a tua mulher, a tua companheira deste caminho que para lá das adversidades, se tem feito de tantas coisas boas, meu amor. Agarremo-nos a elas e procuremos construir mais alegrias no nosso caminho. És um grande Homem!

filipa disse...

concordo plenamente contigo miguel, desejo sinceramente que a tua voz seja ouvida até ao infinito,e que nunca te canses de gritar, e também que esta tua mensagem seja lida, que dê força, que mude mentalidades de muitos homens,está mais que na hora de se assumirem de poderem amar os filhos de forma saudavel e da forma que todas as crianças mereçem, e que.....forçaaaaa. Um beijo.

*Lisa_B* disse...

Olá linda,
hoje só passo para agradecer as visitas e convidar a visitar-me novamente para uma surpresa.
Beijinhossssssssssss e nunca esquecer: força, fé persistência!

Rosa Carioca disse...

(Tem selinho para você, no meu blog.)

 
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