sexta-feira, 26 de novembro de 2010

MUNDOS (INFELIZMENTE) À PARTE


O espaço era pobre, sem quadros, nem telas, nem bonecos, nem nada... Apenas gente e cadeiras básicas de sala de espera de quem desespera e despreza pormenores. As paredes eram de um branco sujo pelo passar do tempo, que fazia sombrio o cenário, encarregando-se o Inverno da restante decoração, com o seu mais gélido frio que se nos ia entranhando.
Era dia de nova consulta. A sobrelotação era evidente, assim como o desconforto do espaço. Tal como nós, vinham pais e filhos de todo o país; consegui até aperceber-me que das ilhas também haviam "representantes". Era portanto, tudo novo... seria mais uma das consultas iniciais que percorremos - a ultima - porque dali, acabaríamos por trazer (apesar de tudo), o mais experiente, conciso e completo relatório, relativo ao diagnóstico do nosso filho.
Entretanto a espera conseguiu derrubar-me, em minutos. Não sei precisar quantos, apenas os suficientes, para ver com os meus olhos uma concentração tal de toda a espécie de síndromes e anomalias, cuja visão me marca, até hoje!
Outras linguas se faziam ouvir... palavras poucas, mal ditas, mal pronúnciadas, a maior parte delas profundamente silênciadas. Estranhos "grunhidos" para os meus ouvidos ecoavam forte, como que numa desgarrada - Tinha a sensação que vinham de todos os lados, e instintivamente os meus olhos percorriam cada uma das faces por detrás destes sons desconhecidos. Com eles o rosto da diferença severa. O rosto, e muito, muito mais... Poucos minutos se passaram até eu desistir.
Logo no guichet, ao dar os dados, senti-me agoniada, mal disposta, apitos na cabeça, tonturas, calores e frios... tinha que fugir para me recompôr, nem sabia bem de quê! Talvez nunca me tivesse imaginado actriz principal daquele filme e no entanto o momento era real. Éramos nós que estavamos ali.... nós e mais uma imensidão de mães, pais e filhos - a maior parte em profunda agonia, tentando sózinhos controlar as naturais "exaltações" dos seus filhos, crianças, adolescentes e adultos em quadro de complicadas perturbações.
Parecia-me um mundo à parte!

" Peço desculpa, mas não me estou a sentir bem e tenho de ser rápida. Tenho marcada para hoje uma consulta de Autismo com o meu filho. Ele está lá fora com pai, uma vez que estes ambientes sobrelotados o desiquilibram... Acha que a consulta vai demorar muito? (Pergunteí)"
" Minha senhora, então não pertence aqui. Aqui é acompanhamento de perturbações mentais graves, e multideficiência. A consulta de autismo, tem umm espaço próprio"

Indicou-me o caminho e saí a correr, sem olhar para trás! Senti-me como que atropelada por um camião e semi-reboque. Tinha sido "passada a ferro" pelo que os meus olhos viram. Não estava minimamente preparada. Desconhecia esta realidade e fraquejeí como uma covarde!
Já num outro espaço, por acaso, bastante mais acolhedor, fomos atendidos de forma exemplar, sem demoras, nem mais "dores". Agora já eram apenas as palavras que nos feriam mais. E a mim, paralelamente, a distinção dos locais de consulta, as expressões dos pais, o que vira, ouvira e sentira... aquele momento em si - remexia-se tudo em catadupa, na minha cabeça!

O tempo (entre muitas outras coisas), veio a mostrar-nos que a dor maior nasce das nossa mentalidades, daquilo que a sociedade nos transmite, da forma como somos "ensinados" a olhar para estas situações. A dor maior está, muitas vezes em nós e na ideia que temos em relação aquilo que é a diferença, por percebermos bem que ela é um mundo à parte, quando não nos toca a nós.
Normalmente, lamentamos de forma involuntária e expontanea a deficiência, em vez de a acolhermos e aceitarmos como parte da diversidade humana, igualmente capaz e útil.

A deficiência também pode ser eficiência, se bem enquadrada... Assim se façam "roupas" à sua medida e se criem os meios e as respostas adequadas.

7 comentários:

silvia disse...

Como podemos queixar-nos do que quer que seja?
Ás vezes de coisas tão futeis e inuteis?
Não consigo dizer mais nada, desculpa...

Carmo disse...

Querida Atena

O Universo quis mostrar-te que existem 'outras realidades', outras procissões de dor, diferentes da tua, presente.

Gosto de te ler, apesar da dor, escreves pela positiva, pela construtiva, partilhando momentos tão doces e deliciosos do teu filho, lindo. E isso não é um privilégio de qualquer um, mas de alguém que é uma "Guerreira de luz", que está lá, inabalável, a lutar pelo que quer...

bjinho
Carmo

Atena disse...

Amiga Silvia,
Muitos lamentos são injustificados, mas acredito que sentidos - No fundo as coisas têm a dimensão que lhes damos dentro do tamanho que temos.
Mas acho que a vida também pode mostrar-nos a inutilidade de um lamento futil, quando por exemplo nos confronta com situações verdadeiramente complicadas. Aprendemos sempre se nos inclinarmos para isso... Dada a tua fortíssima inclinação, estás sempre em constante aprendizagem, secalhar é por isso que praticamente não te queixas, não és minimamente fútil, e por vezes ficas sem palavras. (E palavras para quê, não é?)
Beijo grande e até breve..

Atena disse...

Querida Carmo, também gosto imenso de ler-te... e ter-te presente por aqui. Sinto-me acarinhada pelas tuas palavras e priviligiada por merecê-las. Aprecio imenso esta agradavel empatia, acontece quando se reconhecem alguns valores semelhantes - "palpita-me" que também és uma "guerreira de luz" alutar pelo que queres.
Beijinho grande

maria moura disse...

Com esse palpite atrevo-me a dizer-te que és uma 'bruxinha linda'.

Por vezes o fogo consome-me de tal maneira, que o esforço de luta é enorme para manter acesa a chama. E é ao 'Universo de Luz' que vou buscar forças para prosseguir...

bjinho
Carmo

caminhante disse...

ontem, numa reportagem sobre a "deficiência", mostravam como era difícil para uma pessoa de cadeira de rodas, movimentar-se pelas ruas de lisboa. de repente, dei por mim a pensar... eu nunca vejo ninguém de cadeira de rodas...

às vezes, questiono-me onde estão estas pessoas? "diferentes" de nós, pode ser. mas, por andam elas? sinceramente, acho que a sociedade faz tudo para que elas se escondam. o que os olhos nã vêem...

filipa disse...

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